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Smaointe

11/09/2009 6 comentários

O Poço Sem Nome e a Cor de Cada Anima

Lembro-me da última vez que estive em Luna, a cidade portuária onde nunca é dia. Cheguei e logo fui procurar uma praça para descansar as pernas, pois a caminhada desde Halen foi um pouco mais longa do que deveria, isso não fazendo menção à distância física, mas sim aos fatos que ocorreram no caminho.
Ali, ao meu redor aconteciam muitas coisas, crianças corriam pela praça seguindo um velho que fazia demonstrações mágicas com fogos, vendedores de frutas e pães, homens que fabricavam brinquedos de madeira sentavam nos bancos para expor seus artefatos, entre muitos outros que pareciam não se importar com a escuridão do local, obviamente, já estão mais que acostumados com a noite eterna.
Toda aquela atividade noturna não me era comum e eu certamente me sentia estranho. O fato de eu estar cansado e a escuridão do céu da cidade aos poucos iam me deixando com sono, aproveitei a ocasião oportuna e me deixei levar, achei uma árvore confortável, subi até uns galhos mais altos, deixei minhas coisas penduradas em um galho e tirei um cochilo.
Despertei quando, inconscientemente, percebi a presença de alguém abaixo de mim. Conforme a sonolência foi me deixando, eu percebi que a pessoa estava soluçando e murmurando baixinho, então olhei na sua direção e vi que se tratava de uma garota, aparentemente com uns 14 ou 15 anos. Enfim, por algum motivo eu me senti tentado a descer e perguntar o que aconteceu que a deixou aflita daquele jeito.
Peguei minhas coisas, coloquei nas costas e saltei de onde eu estava direto para o chão, a garota levou um susto com a surpresa da minha súbita presença ali, mas logo voltou a soluçar de um choro mudo sem dar importância para a minha pessoa.
Aquilo me perturbou ainda mais, o que será que estava deixando a jovem assim?
Sentei ao seu lado no pé da árvore e deixei-a sentir que eu estava ali sendo solidário com os seus sentimentos. A princípio ela não se sentiu confortável comigo ali, mas passados alguns minutos ela deitou a cabeça em meu ombro e começou a conter seu choro.
Depois de um tempo naquela situação, eu resolvi me pronunciar e comecei a contar pra ela a história da minha viagem até ali:
 

Havia juntado tudo o que eu tinha em Halen para seguir viagem, convivendo com as pessoas eu aprendi muito, mas não foi suficiente, eu queria mais, precisava encontrar alguém que me ajudasse a encontrar meu caminho, a me iluminar e encontrar paz, por isso parti. E meu primeiro destino seria Luna, mas a viagem até lá iria me ensinar muito mais do que eu poderia imaginar.
Caminhei por quatro dias sem nenhum problema, encontrei pessoas normais em seus casebres e pequenas chácaras com pomares e às vezes até criadouros para animais, dormia ao relento sem problemas, pois nessa época do ano o céu nos presenteava com sua beleza limpa e raramente com tempo tendendo à chuva.
Ao partir para o quinto dia de viagem logo ao acordar já me deparei com uma situação incomum, um homem passou por mim puxando uma menina por uma corda, a qual usava um venda nos olhos, a garota parecia imponente apesar das suas condições enquanto seu parceiro tinha um olhar muito triste, algo o deixava depressivo. O casal sumiu nas curvas entre as colinas enquanto eu terminava de arrumar minhas coisas para seguir viagem, mas aquela cena não deixava minha cabeça, mas eu decidi continuar meu caminho sem me preocupar muito com os dois.

Três dias depois, Luna já podia ser vista no horizonte e isso acarretava em certo movimento na estrada a toda hora, portanto resolvi passar a noite em uma estalagem. Entrei na segunda que encontrei, tinha largas janelas pro norte e para onde eu conseguiria ver as montanhas, mas logo que entrei já me deparei com confusão. O senhor que atendia não queria abrir vaga para um casal que estava ali para passar a noite. Coincidentemente era o mesmo casal que eu tinha encontrado naquela manhã no meu quinto dia de viagem desde que deixei Halen. O dono da estalagem dizia que não podia abrir a estalagem para alguém que tinha “os olhos da anima”. Meu avô já tinha me contado essa história, mas eu acreditava que era apenas mais uma de suas fábulas, não imaginava que era de fato uma história real.
Não consegui me conter diante daquela situação e entrei no meio da discussão chamando o casal para dividir os colchonetes ao pé da montanha mais ao norte e conversar enquanto eu lhes mostrava um ou duas estrelas nomeadas. O homem, que aparentava estar prestes a chorar aceitou minha proposta como uma criança para a qual é oferecido um doce. A mulher, por outro lado, parecia indiferente, cega pela venda que usava disse para o homem que poderia ir se quisesse, mas suas pernas já estavam muito cansadas e não conseguiria andar até lá. Quase que imediatamente, o homem pegou a garota no colo dizendo que não teria problema e me apressou para sairmos logo dali.

Andamos por um tempo até eu encontrar um local apropriado para descansarmos e enquanto eu começava a ajeitar as coisas no chão, fui percebendo que a garota tratava o jovem como um servo pessoal, ela era realmente cega e tinha os olhos fundos e pálidos. Contudo, apesar do tratamento árduo, o homem, que se apresentou como Lios, a tratava como sua majestade. Aquilo não me fazia sentido, mas deixei um pouco de lado e comecei a contar para ele a história de uma das estrelas do céu, uma chamada Arjhur.
Deixando de lado a minha historia da estrela, logo que eu terminei, ele resolveu contar uma historia também, a dele e o motivo do homem tê-lo chamado de “olhos de anima”.

Dizem que aquele que olha para o poço sem nome, é capaz de enxergar a anima das pessoas, saber sobre suas tendências e personas. Entretanto, tal poço é uma mera lenda, não existe nada que mude de lugar dependendo do humor dos habitantes e da sua sede por poder. Pelo menos não existia até Lios o encontrar e provar que realmente não se deve desejar ter mais do que suas mãos conseguem segurar.
Os olhos que mergulham em tal poço, ficam encantados com o poder de ver a verdade de qualquer pessoa a sua frente, mas isso depende sempre da interpretação que cada um tira do que lhe é mostrado. Como conhecedor da lenda do poço e de seus poderes, o jovem Lios não hesitou em beber e se banhar das suas águas.
Agora ele decidiu que teria que por a prova os poderes que a fonte lhe concedera, mas ele não sabia a responsabilidade que tal poder lhe traria. Ao chegar em um local com mais pessoas, Lios perceberia o que era capaz de fazer agora. Ele era capaz de ver através da casca que envolve cada pessoa, que por dentro quase todos tinham mais medos, angústias e temores do que alegrias, apenas algumas crianças se salvavam.
Contudo o trauma maior veio quando ele conseguiu ver a si próprio refletido em um lago, ele percebeu sua face negra e deturpada, mergulhou por alguns minutos e tentou meditar, não encontrava conclusões que pudessem vir a purificar os atos que cometera no passado e que, por ser jovem e ávido por força, ele deixou de lado. Quantas pessoas não teve que machucar, quantos lares não precisara destruir, tudo por uma causa infundada de conseguir mais do que jamais teve. Lios sabia que isso não era um desejo errado, mas que errado eram os meios que ele usava para tal.

Assim ele tomou a decisão que deveria pagar por isso, que se ele quisesse ter uma verdade limpa dentro de si, teria que recompensar tudo o que havia feito no passado.
Andou por Halen toda em busca de alguém que realmente precisasse de ajuda, foi onde ele encontrou Asly, a garota cega, era uma garota pobre, da rua a qual não conhecia diversão, pois vivia para ajudar sua madrasta a pedir esmolas e a mostrar algumas habilidades que nenhuma outra pessoa cega era capaz de fazer naquela região.
Aos poucos ele conseguiu a confiança de ambas e havia prometido a ela que a ensinaria a imaginar as cores do mundo, feito este o qual era impossível para quem jamais conseguiu ver qualquer outra cor antes, mas para ele era uma missão sagrada, quase divina e que piamente ele acreditava que iria ser o suficiente para limpar sua anima e o deixar livre para partir.

Asly pegou no sono enquanto trocávamos histórias. E o homem parecia realmente muito arrependido por tudo que havia feito de ruim antigamente e dizia que tudo o que ele queria era finalmente encontrar paz e descansar depois que sua missão fosse cumprida.
Por final ele concluía sua história afirmando que ele nunca poderia descansar em paz enquanto estivesse com a benção do poço e o único jeito de perder tal benção era se ela fosse dada a outra pessoa que aceitasse a responsabilidade de atentar para as pessoas com quem tivesse contato.
Lios observava Asly dormir, ela movia os lábios e sorria às vezes. Eu me pegava pensando em como é que ele conseguiu escolher uma garota tão mimada para tomar conta, era um peso e tanto, e com certeza ele há muito já tinha compensado sua dívida consigo mesmo.

Quando nos deitamos para dormir, a garota Asly levantou excitada com o sonho que acabara de ter, ela cantava alto e abraçava Lios agradecendo e dizendo que viu, que pela primeira vez ela viu algo em seu sonho, ela tinha certeza que era uma árvore, como a que todos dizem, aquela que dá os frutos vermelhos e que balança com o vento. Ela viu.
Pela primeira vez desde nosso encontro, eu vi Lios sorrir, ele estava feliz e merecia perdão. Mas quem há de perdoá-lo sendo que ele não possui amigos, nem conhecidos? Quando ele iria perceber que a própria vida já o perdoou e que com o episódio que acabara de acontecer ele teria recebido a maior prova disso?
Ah, ali estava eu, como se por algum truque de Mérien tudo estivesse armado para que a parcela de cada um na roda que gira o mundo fosse cumprida naquela noite. Eu sorri também, junto com o abraço dos dois jovens, o pecador e a cega, ambos felizes por terem acabo de realizar seus maiores desejos.
Claro que tudo podia ser finalizado perfeitamente, bastava que alguém, no caso eu, ajudasse o homem a se livrar da benção do poço…

Na manhã do dia seguinte, o casal partia em direção a Halen novamente, iriam começar uma vida lá, Lios iria montar uma casa de shows para crianças onde Asly se apresentaria usando lindos vestidos das cores que ela escolhesse e que a cada dia eram mais e mais inimagináveis.
Enquanto eu, bom… Seguiria minha jornada em busca da iluminação agora com uma missão herdada: a missão de querer ajudar todo mundo a encontrar um caminho, assim como Lios e Asly encontraram os seus.

A garota já havia parado de chorar, e empolgada com o final da historia, perguntou se ela era digna de saber meu nome, se podia me contar o seu, e que queria ouvir como era a sua anima.

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