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Archive for the ‘Mitos de Khali’ Category

Mitos de Khali

Marowit – A senhora dos pesadelos.

Por muitos séculos, os habitantes de Khali passavam suas noites calmamente. Ninando com as bênçãos de Bianca a deusa da noite.

Contudo, um fator externo começou a influenciar as noites das criaturas vivas. Um fator que não era domínio da senhora da noite, pois isso existia desde sempre nas consciências de cada ser vivo, esse fator, mais tarde foi nomeado de sonho.

 

Quem, ou o que rege o poder dos sonhos ainda é desconhecido, alguns acreditam que sejam fragmentos de anima que vagam perdidos pelo ar e acabam entrando em contado com o ser que está dormindo e influencia seus pensamentos durante a noite. Outros, mais místicos, acreditam que seja realmente obra de uma pessoa poderosíssima, a qual é capaz de tocar a mente de tudo aquilo que dorme e fazê-lo sentir a realidade de outro ponto de vista durante o sono.

 

Independente do ponto de vista, uma verdade é inegável – existem sonhos ruins, e eles podem ser muito ruins. De alguma maneira, o ingrediente do qual são formados os sonhos fora afetado por uma energia maligna que o corrompeu, transformando-os às vezes em pesadelos, que é a forma mais obscura de se sonhar. Os estudiosos do assunto dizem que um pesadelo é a recompensa que você recebe quando desagrada a deusa Bianca, pois com seu poder ela pode punir as pessoas com sonhos ruins. Existem boatos de que pessoas já até morreram com pesadelos tão horríveis que suas mentes não conseguiram mais distinguir o que era sonho da realidade.

 

Mas nessa história existe um porém. A realidade revela que a os pesadelos são governados pela senhora do ocaso, mas a sua existência se deve a outro ser. Uma criatura macabra criada em tempos anciões quando o mal tentou invadir os domínios dos marqueses e dominar toda Khali.

Essa criatura se esconde no fundo dos abismos mais profundos, sempre a espreita, esperando uma chance de dominar uma mente e mostrar a ela a realidade que em breve se fará existir. Este ser é Marowit, senhora dos pesadelos. Uma tenebrosa habitante das profundesas¹, que reina eternamente sem pena dos humanos e sem qualquer influência dos deuses sobre suas atitudes.

 

Como os seus irmãos, ela é capaz de dominar corpos conscientes e se apossar de suas formas, podendo assim, levar seu terror às mentes facilmente manipuláveis.

Outros mitos contam que, em passados distantes, a sua forma física já foi derrotada duas vezes, por poderosos heróis que já não vivem mais para explicar a aparência dessa temível criatura.

Fato é, que enquanto existirem pesadelos, ela provará sua existência e não importa se as criaturas acreditam que sonhos ruins são castigos de Bianca, afinal eles realmente são. O que Marowit faz com os sonhos das pessoas é muito pior.

¹ – Raça de criaturas feitas da energia negativa que se opõe ao Anima do universo.

 

 

nota: Todas as imagens relacionadas aqui foram retiradas do site deviantART com autoria de GENZOMAN e seu excelente trabalho.

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Ave Extraordinária

11/10/2009 1 comentário

…Alva e brilhante, mais que as fagulhas da Luna Estrela*, a ave mítica que os sábios antigos chamam Lumerpa é um dos mais belos mensageiros de Athamoni**, dizem que o brilho de suas plumas parece iluminar todo o ambiente, ao ponto que ninguém jamais viu sua sombra… Presenciar o vôo da ave extraordinária é uma dádiva rara que traz paz ao coração de qualquer criatura.

Sua origem é mistério, um fato que esse mundo ignora, mas diz-se por essas terras que já fora vista em muitos lugares. Há relatos que a ave extraordinária vem do mar, da direção da Lua, e em pouco tempo volta pelo mesmo caminho, espalhando um rastro de magia antiga e beleza a cada visita, o motivo pelo qual esse pássaro da cor da Lua, e que brilha como o Sol, vem às terras do Exílio é mistério igual..

 

 

 

“Lumerpa” Do ‘Compêndio de Hanna’.

 

 

* Fênomeno anual em que as magas luas das terras do Exílio alinham-se emitindo feixes brilhantes da energia lunar.

** Lendária Deusa da criação.

 

A lenda de Irôko

03/01/2009 4 comentários

Histórias do Moiro para se contar em volta da fogueira…

No começo dos tempos, as primeiras árvores plantadas foram os Irôkos, Na mais velha das árvores de Irôko, morava seu espírito, e o espírito de Irôko era capaz de muitas mágicas e magias…
Irôko divertia-se assombrando os outros… À noite saia com uma tocha na mão, assustando os caçadores… E quando não tinha o que fazer ficava a brincar com as pedras que guardava nos ocos de seu tronco.
Fazia muitas mágicas, para o bem ou para o mal. Todos temiam Irôko e seus poderes…
Quem o olhasse de frente, nos olhos, enlouquecia e podia até morrer de medo. 

Numa certa época, logo após a grande guerra das trevas, nenhuma das mulheres das aldeias engravidava… Já não havia crianças pequenas no povoado e todos estavam desesperados.
Foi então que as mulheres tiveram a idéia de recorrer aos mágicos poderes de Irôko. Juntaram-se em círculo ao redor da árvore sagrada, tendo o cuidado de manter as costas voltadas para o tronco, Não ousavam olhar para a grande planta face a face, suplicaram a Irôko, pediram a ele que lhes desse filhos…

Já esperto e ligeiro ao lidar com o espírito humano Irôko quis logo saber o que teria em troca. As mulheres eram, em sua maioria, esposas de lavradores, e prometeram a Iroko o que tinham aa oferecer no momento: milho, inhame, frutas, etc… Cada uma prometia o que o marido tinha para dar.

Uma das suplicantes, chamada Olurombi, era a mulher do entalhador e seu marido não tinha nada daquilo para oferecer… Olurombi não sabia o que fazer e, no desespero, prometeu dar a Irôko o primeiro filho que tivesse…

Nove meses depois a aldeia alegrou-se com o choro de muitos recém-nascidos. As jovens mães, felizes e gratas, foram levar a Irôko suas prendas. Em torno do tronco de Irôko depositaram suas oferendas. Assim Irôko recebeu milho, inhame, frutas, etc…

Olurombi contou toda a história ao marido, mas não pôde cumprir sua promessa. Ela e o marido, naturalmente, apegaram-se demais ao menino prometido.
No dia da oferenda, Olurombi ficou de longe, segurando nos braços trêmulos, temerosa, o filhinho tão querido… E o tempo passou… Olurombi mantinha a criança longe da árvore e, assim, o menino crescia forte e sadio.
Mas um belo dia, passava Olurombi pelas imediações do Irôko, entretida que estava, vindo do mercado, quando, no meio da estrada, bem na sua frente, saltou o temível espírito da árvore.

Disse Irôko: “Tu me prometeste o menino e não cumpriste a palavra dada. Transformo-te então num pássaro, para que vivas sempre aprisionada em minha copa.”
E transformou Olurombi num pássaro e ele voou para a copa de Irôko para ali viver para sempre.

Olurombi nunca voltou para casa, e o entalhador a procurou, em vão, por toda parte… Ele mantinha o menino em casa, longe de todos.
Todos os que passavam perto da árvore ouviam um pássaro que cantava o nome de cada oferenda feita a Irôko… Até que um dia, quando o artesão passava perto dali, ele próprio escutou
o tal pássaro, que cantava assim:

“…A que prometeu frutas trouxe as frutas… A que prometeu inhames trouxe os inhames… A que prometeu milho de o milho… Só não cumpriu a palavra a que prometeu o filho…”

Sim, só podia ser Olurombi, enfeitiçada por Irôko, ele pensou.

Ele tinha que salvar sua mulher! Mas como, se amava tanto seu pequeno filho? Ele pensou e pensou e pensou e teve uma grande idéia. Foi à floresta, escolheu o mais belo lenho de Irôko, levou-o para casa e começou a entalhar. Da madeira entalhada fez uma cópia do rebento, o mais perfeito boneco que jamais havia esculpido. O fez com os doces traços do filho, sempre alegre, sempre sorridente. Depois poliu e pintou o boneco com esmero, preparando-o com a água perfumada de ervas sagradas. Vestiu a figura de pau com as melhores roupas do menino e a enfeitou com ricas jóias de família e raros adornos. Quando pronto, ele levou o menino de pau para Irôko e o depositou aos pés da árvore sagrada.
Irôko gostou muito do presente. Era o menino que ele tanto esperava! E o menino sorria sempre, passava a sensação de alegria. Irôko apreciou sobremaneira o fato de que ele jamais se assustava quando seus olhos se cruzavam… Não fugia dele como os demais mortais, não gritava de pavor e nem lhe dava as costas com medo de o olhar de frente.
Irôko estava feliz. Embalando a criança, seu pequeno menino de pau, batia os pés no chão e cantava animadamente.

Tendo sido paga, enfim, a antiga promessa, Irôko devolveu a Olurombi a forma de mulher. Aliviada e feliz, ela voltou para casa, voltou para o marido artesão e para o filho, já crescido e enfim libertado da promessa.

Alguns dias depois, os três levaram para Irôko muitas oferendas. Levaram espigas de milho, inhame, frutas, laços de tecido de estampas coloridas para adornar o tronco da árvore. Eram presentes oferecidos por todos os membros da aldeia, felizes e contentes com o retorno de Olurombi.

Até hoje todos levam oferendas a Irôko.

Porque Irôko dá o que as pessoas pedem.

E todos dão para Irôko o prometido…

Senão…

 

Retirado de: conto 79 do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi