Canções ao Luar

 

Parte 1 : Pedras e Vozes


A noite era fria e silenciosa naquele dia, lembro-me de ter despertado nos fundos do que parecia ser uma hospedaria, estava caído sobre algumas caixas de papel duro que haviam sido jogadas ali.
Meus braços e pernas custavam a se movimentar, parecia que dentro do meu peito tinham milhares de ferrões que a cada movimento que eu fazia, pareciam penetrar cada vez mais fundo em meu interior.
Era uma dor aguda e contínua, a dor de quem tinha que carregar muito peso sobre os ombros, a dor de quem tinha que pagar ainda caro pelos crimes do passado.

Passaram alguns minutos enquanto eu havia decido juntar mais forças antes de nova tentativa de ficar em pé, contudo, esses minutos pareciam horas, eu estava ferido, mas ainda tinha uma missão a cumprir, detalhes a confirmar e, principalmente, encontrar minha liberdade.
Passei minha mão sobre as pedras frias que pavimentavam o chão daquela viela aos fundos da hospedaria, tentei ver se não havia nada acima de mim que pudesse me ajudar a levantar com maior facilidade.
Enquanto me esforçava para levantar, consegui notar que outro de meus sentidos estava voltando a funcionar. E naquele momento, ouvi vozes se aproximando.

Fiquei em silêncio e imóvel. Não que isso fosse uma tarefa difícil nas minhas condições, mas eu não queria ser pego naquele estado vergonhoso, se fosse alguém perigoso poderia me vencer com as mãos amarradas.

– Eu vi. Caiu por aqui com certeza. – Cochichou uma das vozes. Feminina e suave.
– Você tem certeza? Não podemos perder essa recompensa, a guarda está pagando muito por ele. – Replicou outra voz, mais masculina e sem nem um pouco de cuidado.
– Guarda? E você ainda acredita neles? Os covardes não tiveram nem coragem para vir até aqui. – Voltou a falar a voz feminina.

Eu não queria mais ouvir aquilo, eram de fato alguns idiotas procurando encrenca, ninguém ali teria colocado a minha cabeça como recompensa, afinal eles nem sequer sabem que eu ainda existo.

Nesse momento, uma pequena onda de excitação subiu a minha cabeça e me fez ter vontade de rir, mas meu corpo sentiu novas pontadas e eu acabei deixando escapar um gemido de dor. Um som que com certeza as duas pessoas ali perto eram capazes de ouvir naquela ocasião.

– Shhhh! Você ouviu isso Aya? – Comentou o dono da voz masculina, apreensivo.
– Sim. Veio daquele lado. – Disse a jovem apontando para as muitas caixas caídas no canto atrás da construção de madeira.

Naquele momento, por mais imóvel e invisível que minhas habilidades me pudessem deixar, eu ficaria totalmente exposto às duas pessoas que aos poucos caminhavam em minha direção.
Contudo, minha maior surpresa se deu quando eles finalmente apareceram na minha frente. Acabei me deparando com meras crianças. Bah. Mesmo naquele estado eu poderia dar fim na existência de ambos facilmente, porém esta não era minha intenção, apenas continuei calado no chão esperando que eles me confundissem com algum bêbado sem teto e acabassem por retomar seus rumos.

Eu esperava que isso fosse acontecer… Esperava.

 

Parte 2 : A Dama e o Luar

 

As vozes não paravam de ecoar na minha cabeça, os dois jovens estavam sobre mim falando mil coisas de uma só vez. Estavam atônitos e com medo. De todas as coisas que eles estavam a falar, em certo momento saiu da boca de um dos dois, algo que me agulhou a espinha bruscamente, me fazendo agarrar com força o braço da criança que estava mais próxima, no caso, a menina.

 

– O quê você disse menina? – perguntei a ela fazendo um esforço equivalente ao de arrastar uma casa.

 

A garota levou um susto, caiu no chão e só não bateu a cabeça em uma das caixas porque eu estava segurando com força o seu pequeno braço. Ela soluçava e não conseguia me responder, o que me obrigou a perguntar novamente:

 

– O que vocês sabem sobre mim?

 

De nada adiantou, a menina me olhava com o fundo dos olhos e não demorou nem 2 segundos até que ela caísse no choro.

Isso me fez instantaneamente soltar seu braço e tentar tapar sua boca, pois chamar mais atenção era a última coisa que eu queria naquele momento, porém toda minha preocupação foi esmagada quando o menino juntou toda a coragem que reunira em seus poucos anos de vida e me acertou com uma ripa.

O golpe, mirado por total acaso em meu peito ferido, acabou por me fazer gritar de dor novamente e isso de fato, atrairia mais pessoas até aquele local, um ótimo esconderijo até então.

Levantei, segurei os dois antes que começassem a correr desesperados e os arremessei estalagem acima os fazendo cair dentro da janela do terceiro andar. Após me livrar dos pequenos, eu comecei a andar rumo à viela perpendicular aquela que eu estava me escondendo, a qual ficava na parte de trás da construção lotada de viajantes, eu torcia do fundo da minha anima para que ninguém me visse.

Mas com certeza os deuses usam de alguma força que move o azar nessas horas e como uma lei infalível, me fez mais uma de suas vítimas. E nesse instante pude ouvir uma voz feminina dizer as minhas costas:

 

– Ei, pare ai senhor.

 

A voz era delicada e suave, mas parecia querer me devorar. E de fato era isso que estava fazendo no meu interior, eu não para de pensar quando que esta série de eventos comandados pelo azar em pessoa iria terminar.

Atendendo ao pedido da voz melodiosa, eu parei sobre meus calcanhares, olhei lentamente para o céu estrelado e me virei devagar, sentindo os ossos do meu corpo rangerem contra meus músculos ainda danificados.

 

– Huuum, que belo exemplar temos aqui. – ela disse se aproximando de mim e circulando em volta do meu corpo com os olhos e tocando meu rosto com sua mão fina e delicada, assim como a sua voz.

– Este “belo exemplar” precisa ir embora minha jovem dama. – Falei baixo para que apenas a jovem pudesse me ouvir.

– Não tenho dúvidas disso, afinal, quem é que não ficaria preocupado após assassinar duas indefesas crianças?

 

A garota pensava que eu tinha dado cabo dos dois fedelhos ao jogá-los para o quarto da estalagem, mal sabia ela que eu conhecia aquele quarto como a palma da minha mão.

A garota, no entanto não era uma pessoa comum, afinal, porque ela até agora não chamou nenhuma autoridade sendo de desconfia tanto de que eu teria matado os pequenos? Ela com certeza queria mais informações, provavelmente deve saber alguma coisa sobre mim, ou pelo menos desconfia.

Então, decidi começar a me afastar, pois estava ficando exposto demais ao perder tempo ali. Convidei a bela senhorita para um passeio enquanto explicava a situação:

 

– Querida, que tal me acompanhar até a ponte leste desta cidade? Não posso mais ficar aqui e até chegarmos lá eu terei tempo para lhe explicar o que houve aqui.

– Ah, claro. E também teria tempo para se livrar de mim da mesma maneira como se livrou das crianças? – Disse ela levando sua mão até a boca demonstrando um cinismo sem igual.

– Bom, nesse caso então eu irei sozinho. É uma pena não poder desfrutar da companhia de tão ilustre beldade. – Falei rapidamente enquanto me afastava devagar.

 

Dizendo isso, a mulher pegou um pequeno saco de Velis¹ em Merena¹ e despejou seu conteúdo em uma das mãos enquanto entoava baixinho uma espécie de cântico que não pude compreender.

Sem dar muita atenção para aquele ato repentino da jovem, continuei a caminhar me afastando das propriedades daquela estalagem onde tudo começou. Contudo, a cada passo que eu dava, sentia algo estranho percorrendo meu corpo, algo que fazia com que meus movimentos ficassem cada vez mais lentos e difíceis.

Ao ver a jovem e bela dama ficando para trás com um sorriso malvado no rosto, eu fui, aos poucos, identificando o que estava acontecendo comigo.

 

– A maldita está me petrificando! – Deixei escapar para os céus naquele momento infortuno.

 

Parte 3 : Caça e Caçador

 

Lary chegara em Luna há dois dias e já não agüentava mais ficar o tempo todo sob a escuridão da noite. Ela era uma jovem promissora, que se adaptava muito bem em vários ambientes, porém a noite era uma exceção, ela sentia uma tremenda dificuldade em se manter jovial sem experimentar por pelo menos duas horas o calor e a proteção de seu aclamado Sol. Entretanto, o que ela tinha vindo fazer ali era muito mais importante, uma missão que é passada a todos aqueles que querem se aderir ao “Vezhad¹” do Rei Yoneh Ihabed, e ela não tinha a menor intenção de desistir da sua busca.

 

A jovem Larielle de Eth’ellen era uma jovem muito bela. Seu rosto, composto de finos traços delineados era composto de olhos incrivelmente azuis, protegidos por cílios longos e marcantes, Ajudando a compor o seu olhar calmo e fascinante, tinham sobre as pálpebras sobrancelhas finas e firmes, com um desenho que o melhor artista do reino jamais seria capaz de reproduzir, seus lábios, cheios e marcantes produzidos com batom púrpura que brilhava atrativamente, convidando involuntariamente qualquer humano a sentir uma ponta de tentação. Completando a face majestosa, ela tinha cabelos curtos excepcionalmente bem cuidados, negros como a escuridão do céu noturno, naquele ambiente refletiria a luz das luas como um espelho se não fossem as suas tranças, arrumadas de forma a deixar seus cabelos adornados com prata, muito mais elegantes do que eles já seriam naturalmente.

Era sem dúvida alguma, a jovem mais bela que o reino de Kah Lad já viu, e agora estava em Luna, para que o Reino de Armétia também sele conhecimento de tamanha singularidade.

 

Larielle, ou apenas Lary, como preferia ser chamada, sabia da existência de uma estalagem muito famosa em Luna que era conhecida apenas de “O Ponto”, seria o seu primeiro local de busca de informações sobre o “Caçado” e era diretamente para lá que ela se dirigia.

 

Em Luna, fica difícil de dizer as horas, uma vez que lá é sempre noite. Contudo, Lary não sentia nenhum pingo de cansaço e tinha decidido que não precisaria alugar um quarto na estalagem, pelos menos por hora, tudo que ela precisava era de informações.

 

Ao chegar em frente da comentada estalagem, ela sentiu uma ponta de curiosidade por um fato até então despercebido, a estalagem era envolta apenas pelas sombras das outras construções e árvores locais, mas não emitia sombra própria. Foi então que, ao se sentar em um pequeno banco, chamou duas crianças que por ali andavam, e lhes pagou umas poucas moedas para que dessem a volta no lugar e voltassem até ali, contando a ela qualquer movimento estranho que vissem.

No entanto, passados alguns minutos, as jovens crianças não retornaram, o que levou Lary a caminhar por si própria em volta da estalagem para procurá-los.

Depois de alguns passos, a bela jovem viu um homem aparentemente decrépito arremessando as duas crianças janela acima, e isso obrigava o seu senso de justiça a ir até lá e resolver esse infortúnio antes de continuar investigando o local.

 

Parte 4 : Sorte e Azar

 

Eu sentia meus pés e pernas perderem o movimento, sentia eles se solidificando aos poucos. Mantive a calma e lembrei-me do rosto feio de uma das tias de Olan, um amigo do monastério onde passamos dois anos estudando juntos. Era um rosto feio e cheio de rugas, que dia a dia me atormentava com suas ameaças e pragas, pois eu não era um aluno exemplar quando se tratava se estudar alquimia, anima, magias e toda essa coisa de energia de Khali, que eram a especialidade da velha bruxa.

Entretanto, o que me fez de fato lembrar da mulher, foi uma breve aula sobre “efeito-medusa”, como ela havia chamado sua magia de petrificação avançada, a qual consistia em derramar um pouco de areia sobre o chão enquanto entoava uma oração ao deus da terra, ou algum outro deus pertinente, porém isso não salvaria a minha vida naquele momento, pois o interessante seria que eu lembrasse de como se quebra o feitiço, e não de como se faz ele.
Teria de tentar outra estratégia, o diálogo:

 

– Hunf. Mocinha, mocinha. – eu disse calmamente, fazendo breves pausas entre as palavras. – Vejo que têm alguns truques na manga.

– É. Tenho alguns. – Ela me respondeu com indiferença.

 

Minha estratégia de tentar o diálogo falhou. Devo assumir que de fato nunca fui um mestre das palavras. Entretanto se tem uma coisa que sempre tive, foi sorte. Olhei o cenário discretamente, afinal nas minhas condições físicas era uma das poucas coisas que eu ainda podia fazer decentemente. Observei um fato curioso, duas mulheres dançando bêbadas no andar de cima da estalagem, estavam perto demais do beiral da janela a qual, coincidentemente, ficava exatamente onde a jovem estava para, apenas alguns metros acima.

 

Não sei se ela estava muito concentrada no seu feitiço para me petrificar, ou se ela realmente não ouviu o barulho, mas uma das mulheres caiu da janela acima sobre a bruxa, quebrando sua concentração. Aquela era uma oportunidade excelente para fazer minha ação. Peguei do chão a maior pedra que encontrei e a carreguei com um pouco de anima. A Pedra se transformou lentamente em um pequeno cristal brilhante, extremamente resistente e leve, como se não pertencesse a nenhuma outra classe de rochas deste mundo.

Em seguida disparei a pedra como um projétil para cima dela, deixando-a inconsciente.

 

Enquanto eu me livrava da magia que tinha petrificado minhas pernas, a outra mulher bêbada caiu sobre o monte formado pelas outras duas mulheres que jaziam no chão a alguns metros a minha frente. O homem do andar de cima estava debruçado na janela chorando e lamentando a perda de suas damas, porém o seu grau de embriaguês era tamanho que não consegui entender sequer uma palavra que ele havia pronunciado.

 

Na minha mente eu mantinha a idéia de que precisava me recuperar o quanto antes, pois alguns fatos inesperados aconteceram por demais nessa noite.

E mais uma vez eu fui obrigado a usar o conhecimento proibido. Por mais que tenha sido um efeito simples, isso poderá me causar problemas futuros.

 

Parte 5 : Sombra e Silêncio


Deixei o local rapidamente, não queria que a garota me lançasse outra magia. Contudo resolvi que voltaria para a estalagem, afinal, meu destino era estar lá dentro desde o começo.

Dando passos curtos, mas tentando andar rápido, eu dei a volta na construção até chegar novamente na porta de entrada, que estava cheia de pessoas saindo apressadas, pelo visto houve algum tumulto ali dentro também. Minha única opção era sentar ali fora e esperar por algum tempo, pois não queria correr o risco de entrar em mais uma confusão.

Sentei em uma pedra plana que alguém havia colocado ali na função de servir de banco, recostei-me na parede de madeira pintada da estalagem e fechei os olhos.

 

Quando acordei, a primeira coisa que notei foi que não devia ter fechado os olhos, pois acabei cochilando e agora estou em um lugar fechado e escuro, provavelmente embaixo da terra. A segunda coisa, foi que meu corpo já estava bem melhor, os ferimentos já não doem e me sinto hábil novamente.

Eu estava deitado em uma cama duríssima, que agora vejo ser feita com blocos de pedra. A sala é um cubículo com cerca de uns dois metros de comprimento de cada lado com uma deformação na parede oposta à que eu estava que provavelmente seria a porta por onde me colocaram ali dentro.

Em minha mente se formaram inúmeras possibilidades sobre quem me capturou e seus motivos para tanto, contudo preferi não me preocupar com isso agora. Decidi que seria melhor deitar na cama de pedras novamente e tentar meditar um pouco para ganhar mais força, afinal, se conseguir recuperar todo o meu poder, posso deixar esse lugar com um piscar de olhos.

Depois de algum tempo, finalmente não conseguia mais me manter parado e com concentração. Saí da posição que estava e fui até o lado que tinha a espécie de porta, agora era a hora para examinar ela e finalmente escapar dali.

A parede estava exatamente como estava antes, sem nenhum sinal de movimento, a única coisa diferente que se podia notar era que agora dava para sentir leves e ritmadas lufadas de vento que vinham por entre as frestas existentes entre a parte deformada da parede e todo o resto.

Apoiei de leve as minhas mãos nela e aproximei minha orelha para tentar ouvir algum som diferente do singular e ininterrupto silêncio que me acompanha desde que vim parar aqui.

Quando a parede sentiu a pressão do meu corpo acabou levantando-se para o teto subitamente, revelando outro canto escuro e prolongado como um corredor quadrangular que se extendia mais longe do que a minha visão era capaz de ver. As lufadas de ar agora eram mais fáceis de notar e vinham acompanhadas de outro som, um grunhido rouco que ficava mais alto conforme o tempo passava.

 

Minha intuição logo despertou e me mandou sumir dali o quanto antes. Eu obedeci prontamente quando olhei para o final daquele corredor e pude ver uma besta gigantesca que caminhava ao meu encontro.

Se eu tivesse uma arma, obviamente aquilo não seria um problema, mas agora eu precisava pensar rápido em como me livraria dessa enrascada.

 

Parte 6 : Ajuda e Poder

Recostando na parede ao lado da pedra que se moveu e revelou a passagem para o corredor, eu tentei ficar completamente imóvel torcendo para que o monstro não tivesse notado a minha presença.

Por algum motivo, a imagem da jovem que tentou me petrificar não saía da minha cabeça naquele momento. Queria saber se aquilo tudo era obra dela.

 

A criatura fungava o ar buscando o cheiro de sua próxima vítima. Aos poucos vinha andando e se aproximando de mim, o que me deixou sem esperanças de conseguir escapar sem precisar fazer qualquer esforço.

Improvisei um plano em minha mente o mais rápido que pude, pois teria de colocar ele em prática dentro de poucos instantes.

 

Olhei rapidamente pelo canto da porta para calcular a distância que a besta estava e vi que se tratava de uma mantícora faminta. Surpreendi-me quando percebi que ela estava mais perto do que eu imaginava, teria de entrar em ação imediatamente.

Ainda escondido, fiz barulho alto o suficiente para chamar a atenção da besta completamente para aquela sala e no mesmo instante que ela olhou curiosa para onde estaria sua refeição, eu saí da sala correndo, ao mudar um pouco a direção, saltei na parede e completei o movimento por cima da lateral do monstro, caindo atrás de seu rabo de escorpião.

Sem olhar para trás parti em disparada no sentido oposto, procurando qualquer abertura ou passagem que houvesse por ali.

 

Depois de percorrer uns cem metros, vi o corredor chegar ao seu final, acabando em duas pequenas passagens, uma para cada lado, porém fechadas com grades metálicas. Eu escolhi uma delas e me apressei em procurar uma fechadura, ou um mecanismo que pudesse forçar ou quebrar para que a grade se abrisse.

Com a criatura se aproximando, enquanto eu procurava pelo chão senti uma mão tocar meu ombro. Assustado, virei para saber que outro tipo de monstro estava do outro lado da grade, mas me surpreendi quando vi a bela jovem de vestido branco novamente, desta vez me estendendo sua mão que segurava uma adaga prateada.

 

Sem pensar muito aceitei a oferta. Peguei a adaga e me preparei para o encontro inevitável com a criatura. Fechei os olhos e me concentrei, buscando sintonizar a minha anima com o local. Pude sentir o chão tremendo conforme a besta se aproximava aos trancos, mas isso já não era mais capaz de me abalar, com a pequena arma em punho, eu tinha o foco que precisava para fazer uso de mais um de meus poderes proibidos e banir de vez o mostro dali.

 

Abaixei-me e abri os olhos, pude ver a mantícora correndo sedenta pelo meu sangue. Esperei até o momento certo e proferi as palavras antigas da língua esquecida:

 

“Astur ad meenan Du”

 

E um brilho tomou conta da lâmina da adaga que, com meu movimento horizontal, deixou um corte prateado no ar e um monstro divido em dois pedaços…

 

Parte 7 : Confiança e Precaução

 

Vendo o monstro cair partido ao meio, lembrei de fatos horríveis de meu passado. Fatos que me fizeram jurar que nunca mais usaria meu poder de dominar a anima para transformar em energia pura para causar destruição e dano. Contudo, ultimamente isso tem  sido inevitável.

Voltei meu olhar para a jovem que desta vez, resolvera me ajudar. Ela continuava no mesmo lugar, abaixada procurando um jeito de passar pelas grades de ferro.

 

– Ei. Como é que veio parar nesse buraco? – Eu perguntei de uma vez.

– Ah, denada pela faca, o senhor é muito gentil.

– Bah. – Resmunguei virando as costas e indo para onde ficava a outra grade de metal.

 

A jovem aparentemente não se importou com isso e me deixou sair da sua linha de visão, enquanto continuava a procurar uma maneira de transpor as barras.

Com certeza deveria existir uma maneira de sair dali, mas estava muito bem escondida. Na realidade eu nem estava muito preocupado com isso agora, pois se não houvesse escolha eu poderia facilmente fazer uma saída com a adaga.

 

Ouvi um estrondo no outro lado do corredor e saí para ver o que tinha acontecido. Encontrei a moça caminhando em minha direção com um sorriso no rosto.

 

– Olá. Pode devolver minha adaga? – Disse ela, já esperando minha resposta.

 

Passei reto pelo caminho indo direto para a saída recém aberta, ignorando sua presença por alguns instantes.

 

– Não. Vou precisar dela. – Falei quando ela abriu os lábios para pronunciar alguma coisa.

– Aiai… Será que terei de pegar a força então?

 

Aquele comentário tinha sido totalmente inútil. Desconsiderei quaisquer hipóteses de ela tentar lutar comigo ali embaixo enquanto eu tinha uma arma e ela não. Analisei o novo e longo corredor, procurando por saídas, aberturas, respiradouros, ou qualquer outro tipo de saída daquele ambiente. Enquanto caminhávamos a diante, ela resolveu puxar conversa:

 

– Hmm… Você não faz o meu tipo. Fala muito pouco. Contudo preciso de você para sair daqui.

– Eu não preciso de você pra sair daqui, mas se quiser pode me seguir. Desde que não me atrapalhe.

– Hahahaha. – Riu ela, fazendo muito barulho. – E como pretende sair daqui senhor bonzão?

– Simples. Estou recuperado, com uma arma e um caminho a minha frente. É tudo o que preciso para sair de qualquer lugar.

– Bom. Acredito que nesse lugar seja um pouquinho diferente. – finalizou ela apontando para um enorme salão que se formava a nossa frente, cheio de colunas e rodeado por grades de ferro, como uma gigantesca gaiola.

 

E uma voz alta e rouca se fez no ar em tom autoritário:

 

– Bem vindos ao Coliseu de Ladret!

 

Parte 8 : Riso e Seriedade

 

Vi-me cercado por muitas pessoas estranhas, usavam cabelos todos desarrumados e com enfeites feitos com o que pareciam ser ossos, eles também tinham pinturas tribais em seus corpos que na maioria dos casos eram cobertos com pouca ou nenhuma roupa.

Estávamos dentro de uma espécie de jaula enorme, fechada por todos os lados e com quatro enormes colunas no centro, formando um altar lá no alto iluminado pela majestosa lua que reina na eterna noite da cidade.

 

A jovem Lary caminhou até um dos cantos da jaula e estudou a composição das barras. Enquanto ela andava pelos cantos aparentemente procurando um jeito de sair dali, eu me preocupei em chamar a atenção do velho que havia falado conosco:

 

– Ei senhor, pode nos ajudar a sair daqui? – Disse com ironia.

– Hahahahahahahaha! – Respondeu ele com elevado grau de barulho. – Só tem um jeito de sair daí meus caros, logo vocês irão descobrir!

– Certo, vejo que não tenho aqui um anfitrião muito inteligente…

– Meu jovem, você não está em posição de julgar a inteligência de ninguém. Abram o portão número um!

 

Dito isso, algumas barras da grade se levantaram no canto onde Lary estava observando. Da minha posição não pude ver nada, mas a reação dela me espantou e logo entrei em posição de alerta.

 

– Nossa! Que cheiro terrível! – disse ela saindo dali correndo.

 

E o velho lá em cima voltava a gargalhar estrondosamente. Minha vontade era de atirar uma pedra em sua cabeça a ponto de fazer seus olhos irem parar na nuca, mas tenho de me controlar, pelo menos por enquanto.

 

Ao voltar a minha atenção para a espécie de porta que se abrira, notei que uma certa movimentação se formava lá dentro, certamente eram criaturas se preparando para vir em nossa direção, até onde eu entendi, estamos em uma espécie de diversão para a tribo de um velho imbecil.

Teríamos que aproveitar para atacar logo que as criaturas saíssem do escuro, pois a luz daqui do lado de fora os deixará ofuscados por alguns segundos.

 

Contudo, logo que fui colocar meu plano em ação, entendi o motivo de Lary ter odiado tanto o cheiro que veio de dentro, em nossa direção vinham trogloditas, cinco deles. E aquele odor terrível me impediu de chegar próximo deles como havia planejado.

 

Parte 9 : Luta e Diversão

O velho idiota ria sem parar e esbravejava versos de vitória sem sentido, mas eu estava determinado a calar aquela boca estridente. Seus sons repetidos já estavam me irritando.
Olhei na direção da minha companheira e perguntei:

– Jovem, você ainda sabe usar aqueles truques?
– Sim. Vários! – ela respondeu por entre os tecidos de sua veste, a qual ela usava para tampar o nariz e a boca.
– Então acredito que essa seja uma ótima hora pra você começar a usá-los!
– Estou tentando me concentrar, mas o cheiro não deixa, to zonza demais…

Realmente, aquele cheiro era de deixar qualquer um pra baixo, porém não podia acontecer aquilo comigo também, afinal estávamos em uma questão de vida ou morte.
Eu coloquei na cabeça que aquele era o cheiro de galinha frita com ovos ao molho de alho samediano, eu odiava aquele prato e tinha que comer todo dia. Assim me inspirei pra acabar com aqueles trogloditas idiotas, pois assim que acabasse com eles, o cheiro iria embora junto e era bom eu começar a me mexer logo, pois eles estavam próximos e ameaçadoramente preparados para o combate.

Com Lary correndo para longe do cheiro das criaturas enquanto tentava se concentrar para conjurar suas magias, eu empunhei a minha arma em posição de combate, me concentrando para executar os melhores golpes possíveis.
O primeiro veio pra cima de mim com raiva nos olhos, ele correu em minha direção balançando sua clava incessantemente, me pressionando a recuar em direção aos outros que terminavam de dar a volta no círculo que eles formavam para facilitar sua vitória.
De fato tiver de dar três passos para trás, caso contrário seria atingido por aqueles golpes que de fato não eram nem um pouco fracos. Contudo, apesar da força da investida do monstro, seu ataque não foi nem um pouco inteligente, pois ficou com a guarda totalmente aberta enquanto corria e isso me proporcionou uma brecha para estocá-lo com minha adaga, perfurando sua barriga enquanto me desviava para a lateral dele podendo assim aplicar outros dois golpes em suas costas, um no braço e outro perfurando a parte de trás de seu pescoço, o que foi suficiente para derrubá-lo e servir de exemplo de cautela a seus outros quatro amigos remanescentes.

Não sei se fiz algo fora do comum, mas vencer com certa facilidade um deles inspirou Lary e logo pude ver ela focada e com luzes de eletricidade saindo de seus olhos, finalmente eu ia poder ver o que realmente ela era capaz de fazer. Confesso que há muito estava curioso para ver isso, apesar da situação, aquele encontro estava me despertando novamente uma vontade que há muito tempo eu decidira esquecer…

 

 

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  1. Kleo Souza
    07/01/2012 às 15:44

    Há Continuação para este conto??
    Se Houver, me envie o link, ou mesmo o conto completo.
    Estou ancioso para saber o fim.
    Obrigado, boa tarde!

    • 08/01/2012 às 0:43

      Esse conto são compilações de manuscritos da época da minha escola.
      Como os manuscritos já esgotaram, eu tenho de continuar inventando o final da história.

      Ando ocupado com meu livro, mas assim que sobrar um tempo eu continuo com os 2 contos que estão pendentes aqui.

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